ESPORTE

Publicada em 05/01/17 às 23:19h - 831 visualizações
A depressão e o alcoolismo fizeram a opção por Adriano.

fonte: esportes.r7.com


Trocou a fortuna e três Copas do Mundo para viver na favela da Vila Cruzeiro. Se diz feliz, enquanto seus parceiros sonham com um retorno ao futebol. Sonho que Adriano sabe o quanto é irreal…
A cena é chocante, triste.
6h45 da dia primeiro de 2017.
Comunidade da Vila Cruzeiro.
"Comunidade" é uma maneira mais delicada de batizar a favela. Milhares de casas de alvenaria, deixam os tijolos à vista, sem tinta. Vielas e mais vielas. Mais de 500 policiais formam a Unidade de Polícia Pacificadora. Tentam, sem sucesso, conter o tráfico.

A favela é dominada pelo Comando Vermelho, não é segredo para ninguém.
Os gatos de luz e tevê a cabo dominam os postes.
Esgoto corre a céu aberto em várias vielas.
O calor do verão carioca é insuportável.
Na Vila Cruzeiro não há frescura, em nenhum sentido.

E é normal homens circularem de bermuda, sem camisa, de chinelos.
Vários deles estão junto de MC Smith neste Reveillon. Ele é autor de funks 'proibidões'. Seus maiores sucessos são Vida Bandida e Vida Bandida 2. Em ambas ele destaca a vida da criminalidade, o Comando Vermelho. E avisa que o "Caveirão", veículo blindado da polícia, 'não o assusta.

MC Smith tinha um anúncio a fazer.
Pede que seja filmado.
E anuncia um tapa na cara da mídia.
Se trata da volta de Adriano ao futebol.
O jogador que já mereceu o apelido de Imperador se surpreende.
E entra no alcance da câmera do celular.

Ele com os olhos vermelhos, com o rosto inchado.
Está virado, sem dormir, como seus parceiros da favela.
Sem camisa.
Constrangido, ouve as profecias do amigo funkeiro.
O sorriso só some de vez quando MC Smith faz um pedido.
Quer que ele repita o gesto que o consagrou.
Mostre os músculos.
A resposta é cortar o coração.

Depois de esconder a barriga com as mãos, balbucia.
"Estou gordo..."

Adriano seguiu o destino que escolheu. Está fazendo exatamente o que quer. Trocou seu talento como goleador pelo direito de viver na favela. Cercado de namoradas, amigos. Festas, farras, churrascos em lajes. Nem quando era um dos maiores atacantes do mundo fazia distinção entre os parceiros que pertencem ao crime dos evangélicos, dos trabalhadores. Trata todos da mesma maneira.

Seu apelido é Didico.

Não tem compromisso com nada. A não ser desfrutar o que resta do que conseguiu ganhar em uma carreira ceifada pela metade. Ela acabou exatamente no dia 4 de agosto de 2004. Nove dias depois da maior conquista de sua carreira. A Copa América do Peru.

Eu estava cobrindo para o Jornal da Tarde e sei o que Almir Leite Ribeiro significava para o jovem atacante. "Esse título vai para o meu pai. Ele é o meu grande amigo desta vida, meu parceiro, sem ele não seria nada", me disse após a vitória diante da favorita Argentina. O título só veio porque Adriano conseguiu empatar a partida no último minuto do segundo tempo e levar a decisão aos pênaltis.

"O Adriano fará história no futebol brasileiro.
Ele é forte, canhoto, talentoso.
É atacante para as próximas três Copas do Mundo."
A previsão era do empolgado técnico campeão, Parreira.

Mas bastaram nove dias e Almir morreria de infarto. Ele tinha uma bala alojada no crânio. Tomou um tiro em uma festa na Vila Cruzeiro. Conviveu com dores lancinantes. A bala perdida se alojou muito perto do cérebro e uma cirurgia seria sentença de morte. Mas acabou falecendo aos 45 anos.

Desde a morte do pai, Adriano mergulhou na mais profunda depressão. Buscou alívio no álcool. Seu então empresário, Gilmar Rinaldi, fez de tudo para tentar livrar o jogador do vício. Queria até interná-lo à força. Adriano me deu uma entrevista exclusiva ao blog.

Em uma longa entrevista, ele confessou que tomava porres e era protegido pela direção da Inter de Milão. Sincero e corajoso, ele expôs todo o seu sofrimento.

"A morte do meu pai deixou um buraco enorme na minha vida.
Ele morreu em agosto de 2004.
Foi a pessoa que me fez quem eu sou.
Devo tudo a ele e a minha família.
Eu acabei ficando muito sozinho, me isolando quando ele morreu.
Foi a pior coisa.
Me vi sozinho, triste, deprimido na Itália.

  




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